Corte salarial

Corte salarial. Muito se tem dito acerca da forma como a Covid mudou as nossas vidas, como vivemos, como trabalhamos, como socializamos, como somos educados. De uma forma ou de outra, não existem um único aspecto da nossa vida que não tenha  sido mudado por esta pandemia. Trabalhar a partir de casa foi provavelmente o que mais se destacou, para a maioria. Antes da Covid, trabalhar a partir de casa era quase considerado um tabú, algumas empresas permitiam o trabalho a partir de casa, alguns dias por semana, outras não acreditavam que fosse funcionar. Veio a Covid, e tornou-se uma realidade para todos. Recentemente, ouvi que há quem acredite que as entidades empregadoras estão agora a considerar cortes salariais para aqueles que continuarem a trabalhar em casa, mas será que isto até faz algum sentido?

Uma mudança de ambiente

Quer seja o Director Executivo de uma  multinacional, o dono de uma pequena empresa ou alguém que está simplesmente a tentar fazer a sua vida, está sempre a olhar para formas mais eficientes e rentáveis de fazer as coisas. Esta é a forma como crescemos e, para empresários, é a forma como os nossos negócios crescem.

Esta pandemia revolucionou a forma como fazemos negócios e abriu as nossas mentes para abordagens diferentes e soluções diferentes. Um ambiente diferente exige uma abordagem diferente e uma resposta diferente.

Antes da Covid, as empresas gastavam milhares de dólares num ou dois pisos de escritório, no centro da cidade. Esse escritório tinha de ser mobilado, equipado e fornecido com tudo, para que fosse possível ser utilizado pelos trabalhadores da empresa. Veio a Covid, e de repente, os trabalhadores desapareceram e o dispendioso escritório ficou vazio. Contudo, o espaço ainda se encontrava na mesma assim como os custos associados a esse espaço.

Uma mudança de mentalidade

Esta mudança de ambiente necessita uma mudança de mentalidade, e eu acredito que essa mudança está a acontecer. As empresas perceberam que ter equipas a trabalhar a partir de casa pode não ser tão mau, como estas pensavam que fosse.  O trabalho é feito e pode ser uma forma rentável de gerir a empresa. Alguns podem dispensar algum espaço de escritório e permitir que as suas equipas trabalhem em casa, até mesmo após estabelecermos um ambiente “normal Covid”. O capital poupado pode ser reinvestido em novas tecnologias ou produtos. Parece ser o aspecto positivo a tirar deste evento tão negativo.  Os empresários precisam de ser criativos para poder ler as linhas deste ambiente e intrepretá-las bem, para que possam estar prontos para a mudança. Há poupanças que podem ser feitas, podem aparecer novas oportunidades e estes necessitam de estar prontos para as enfrentar e andar para a frente.

O mesmo serviço

Mas, as poupanças não incluem salários. Afinal, as equipas continuam a trabalhar, alguns até trabalham mais horas, agora que não necessitam de deslocações. Os serviços que prestam são os mesmos, portanto não existem quaisquer fundamentos para pensar que deveriam ter um corte salarial. E a ideia de que, devido a não terem de se deslocar, têm menos despesas e por isso, deveriam receber menos é, na minha opinião, ridícula. Pagamos pelo serviço prestado, não pelo local onde este é prestado ou pelas despesas pessoais que a pessoa que o presta possa ou não ter. Até mesmo o argumento de que os empregados têm menos despesas, não é totalmente verdadeiro.

Os empregados podem não ter cusos com transporte, pois não necessitam de ir para o escritório, podem não necessitar de comprar comida feita, pois podem comer em casa, mas necessitam de pagar por uma ligação à internet excelente, para serem capazes de fazer o seu trabalho, necessitam de pagar a electricidade que permite o funcionamento dos aparelhos que usam, a  água, etc. Por outras palavras, alguns custos são transferidos para o empregado. Por isso, se analizarmos este argumento, veremos que não tem qualquer sentido.  

Eu acredito que pode ser positivo para ambas as partes, eu penso que ambos podem poupar e todos poderão ter uma melhor qualidade de vida. Contudo, não penso que isso sigifique um corte salarial